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Começar de novo

Fonte: Correio

“Aprendi a não mexer no passado, a não ser que esteja totalmente estruturado”. A lição é de um ex morador de rua, dependente de álcool e cocaína, que construiu uma nova família e reencontrou o trabalho na reconstrução da Arena Fonte Nova.

O que poderia ser apenas uma iniciativa de resgate social pode ser visto como um paralelo do próprio renascimento da velha Fonte. Estádio e homem, sacudindo a poeira e olhando rumo ao futuro.

Édson, apenas Édson, é o autor da frase que abre o texto. Ele não quer mostrar o rosto e nem concorda com a publicação do seu sobrenome. Tem razões para isso.

Com 36 anos, esse pernambucano saiu de casa, no Recife, aos 13, já tomado pelo vício em álcool e drogas. Na origem do seu comportamento, está a falta de estrutura familiar, comum a quase todos que, como ele, encontram nas ruas o último refúgio.

“Minha mãe era bandoleira, passava um ano com um, outro com outro (homem)”, lembra Édson, que tem sete irmãos por parte de mãe e nove do mesmo pai. A dependência química começou cheirando cola. Daí para o álcool, maconha e cocaína foi muito rápido. Expulso de casa, estudou só até a 1ª série do ensino fundamental. Édson confessa pequenos furtos mas, diz que trabalhou em outras obras antes da Fonte Nova.

TRINDADE

Há 20 anos, foi para o Rio de Janeiro e juntou-se com a mulher com quem teve três filhos, hoje todos grandes. Édson não tem notícias deles. “Deixa eles lá quieto (sic), só rezo para eles não serem igual ao pai”.

De volta a Salvador, perambulou pelas ruas e, desde 2002, passou a frequentar a igreja da Trindade, no Comércio, onde o engenheiro Henrique Peregrino mantém um abrigo para pessoas em situação de rua. Vendia picolé, dormia na praia. Hoje, com carteira assinada, faz planos de seguir no ramo da construção após obra do estádio. “Só posso agradecer a Deus por essas portas abertas”.

Antônio planeja montar negócio

Antônio Marques é mais um dos abrigados na Igreja da Trindade que passou por uma reviravolta. Com 38 anos, apenas a oito meses deixou Teresina, no Piauí, onde sempre viveu coma mãe. Não teve pai. “Tive vários padrastos”, faz questão de ressaltar. E cada um deles marcou a vida de Antônio. Ele viu a mãe apanhar e foi perseguido por tentar defendê-la.

Até hoje, guarda a mágoa por ter sido preterido. “Eles (os homens) queriam minha mãe, mas não me queriam”, lembra Antônio, que, de tanto ser maltratado, saiu de casa com quatro peças de roupas na mochila. Morou em casa de estranhos, prestava serviços em troca de abrigo e comida. Com o pouco dinheiro que juntou, comprou uma passagem para Salvador. “Queria morrer na praia, em frente ao mar”, diz o hoje ajudante da obra.

Depois de passar pelo Albergue da Baixa dos Sapateiros e catar muito papelão para sobreviver, foi levado à Igreja da Trindade. Lá, teve a oportunidade de ser encaminhado para as obras do estádio.

Hoje, com os R$700,00 que ganha, já pensa em alugar um quarto próximo à igreja e juntar dinheiro para montar uma loja de cereais, quando a obra estiver concluída – a previsão é março de 2013.

Antônio sonha com prosperidade e não descarta constituir família, “se achar uma pessoa que goste de mim”. Voltar a Teresina, só quando estiver equilibrado financeiramente. “Quero visitar minha família de cara erguida, pra eles saberem que eu venci”. Antônio aprendeu, na carne, o que o futebol ensina na bola. Que não interessa de quanto se perca, sempre há chance de se recuperar.

Experiência é modelo para novas parcerias

Para que os moradores de rua pudessem se tornar funcionários da Arena Fonte Nova, foi preciso trazê-los de volta para a realidade formal. No mundo jurídico, isso significa fazer com que eles se tornem visíveis às estatísticas.
A Defensoria Pública atuou como intermediária para transformar essas pessoas apagadas da sociedade novamente em cidadãos. A subcoordenadora do núcleo de direitos humanos da Defensoria, Fabiana Almeida, se interessou pelo tema após um congresso em Brasília, onde foi apresentada a Maria Lúcia Pereira, presidente do movimento dos moradores de rua de Salvador.

Em muitos casos, ela expediu pedidos de isenção para emissão de novas certidões de nascimento e, a partir daí, todos os outros documentos. Fabiana acredita que a parceria com a Fonte Nova pode motivar novas demandas e levar outros moradores de rua de volta ao mercado de trabalho.

Alexandre Chiavegatto, diretor de contrato do Consórcio que ergue a Fonte Nova, busca parceiros para encaminhar os moradores de rua, já com experiência, para outras empresas e, assim, abrir espaço para tirar outras pessoas das ruas.

 


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